Dona Brasília e seus dois maridos

30/09/2025

Brasília é a Dona Flor de concreto armado e cerrado florido. Cidade moderna, mas com

coração de novela. E, como na obra de Jorge Amado, não se contenta com um marido só.

Precisa de dois: um que garanta o arroz com feijão e outro que faça o coração bater mais

rápido.

No começo, Brasília se casou com o Teodoro da política. Homem sério, calculista,

planilha na mão e terno engomado. Era do tipo que acredita que o maior gesto de amor é

pagar o boleto de luz em dia. Para ele, romance era superávit, jantar era apresentar

orçamento, e pedido de casamento vinha com três vias autenticadas. Brasília ganhou ordem,

rotina e contas controladas. Mas paixão? Zero. A cama da União estava arrumada, mas fria

como sessão plenária às duas da manhã.

Foi aí que, de repente, surgiu o Vadinho da política. Boêmio, falastrão, cheio de

charme, desses que transformam discurso em samba. Chegava no palanque como quem chega

num boteco: abraçando todo mundo, prometendo churrasco, cerveja e até feriado

prolongado. Brasília se apaixonou na hora. Com ele, a vida parecia festa de São João: muito

barulho, fogos, dança e promessa de abundância. Claro, às vezes a panela queimava, a conta

não fechava, mas quem liga? Ele sabia como fazer Brasília suspirar.

Dois mundos, um coração

Eis o dilema: de um lado, Teodoro, o contador responsável, que garante a geladeira

cheia. Do outro, Vadinho, o sedutor que dá vida à festa, mas gasta como quem tem cartão sem

limite. Brasília, como boa flor, queria os dois: queria a segurança do feijão no prato e a emoção

do beijo de promessa.

O fantasma que não larga do pé:

Mesmo depois que Vadinho caiu em desgraça política, não foi embora de verdade.

Virou fantasma rondando os corredores do Planalto, assombrando discursos, aparecendo em

lembranças e até em comícios alheios. Brasília, na cama com Teodoro, ainda sonhava com os

beijos de Vadinho. E o Congresso, essa vizinhança fofoqueira, se dividia: uns juravam que só o

contador salva a pátria, outros pediam de volta o boêmio, mesmo que viesse em versão

fantasmagórica.

Agora, em plena primavera, Brasília vive seu dilema. Quer flores no jardim, mas não

quer perder o adubo. Quer festa, mas também precisa da conta de luz paga. E os

congressistas-jardineiros precisam podar exageros, regar esperanças e impedir que o canteiro

da política vire ringue de UFC. Se não, a primavera acaba em verão seco rapidinho.

Moral da história:

Brasília só vai ser feliz quando aceitar sua sina de Dona Flor: precisa dos dois maridos.

O pão de Teodoro e a cachaça de Vadinho. O boleto pago e o samba improvisado. O chão

firme e o sonho de voar. Porque viver só de fantasma é saudade, mas viver só de planilha é

tristeza.

E nós, o povo, seguimos plateia dessa novela, assistindo Dona Brasília dançar entre o

contador e o boêmio. Torcemos para que a flor do cerrado aprenda a equilibrar perfume e

espinho. Porque, se depender só de um marido, a primavera não dura três meses. Agora, com

os dois fantasmas apaixonados e um contador de impostos a comédia está garantida, e a

novela do Brasil nunca sai do ar.

 

Walter Naime

Arquiteto-urbanista

Empresário.

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