16/02/2026

Narrativa bem contada é igual ratoeira gourmet: vem com queijo suíço, luz amarela aconchegante e, se duvidar, até trilha sonora relaxante. Quando você percebe, já entrou sorrindo, e saiu sem seus interesses primários, que ficaram lá atrás chorando no corredor.

Afinal, o que é uma narrativa?

É aquela história que organiza fatos, emoções e intenções de um jeito tão charmoso que você nem nota quando passa a defender o interesse de outra pessoa com o fervor de fã de reality show.

Nasce onde existe boca falando e ouvido distraído: na esquina, na Grécia Antiga, no grupo do zap, na novela e, claro, no palanque.

E por trás de muitas narrativas tortinhas, quem aparece? Ele mesmo: o sofisma, o personal trainer da distorção mental. Surgiu na Grécia quando descobriram que ganhar discussão dava mais ibope que ter razão. Dádiva dos deuses? Não. Malandragem mesmo.

A seguir, sofismas clássicos, cada qual com um exemplo fresquinho:

Sofisma religioso:

Se você não concorda com o que eu disse, está faltando fé.”

Sofisma familiar:

Se me amasse, faria o que eu quero.”

Basicamente um sequestro emocional com laço de presente. Não é amor, é chantagem com assinatura registrada.

Sofisma industrial:

Se todo mundo compra, deve ser bom.”

Sofisma comercial:

Últimas unidades! Só até hoje!”

Repetido diariamente desde 1998.

Sofisma político:

Ou você vota em mim ou o país acaba.”

Sofisma empresarial / negócios:

Se foi aprovado rápido, é porque está tudo certo.”

Claro. Nada como a pressa para garantir que ninguém leia as letras miúdas.

Sofisma financeiro:

Retorno garantido, risco zero".”

Sofisma comunicacional / mídia:

Se apareceu na TV, é verdade.”

Agora, em época de eleição no Brasil, todos esses sofismas viram kit completo. Cada candidato carrega uma sacolinha com narrativas prontas:

Eu sou o salvador”,

O outro é o apocalipse”

E quem não tomar cuidado vira rato correndo atrás do queijo suíço, achando que é degustação quando na verdade é armadilha.

O jeito de escapar?

Raciocínio lógico.

A ferramenta aristotélica que serve justamente para testar se uma premissa é firme ou se desmancha que nem gelatina no sol. Premissa falsa é isso: cara de verdade, alma de truque.

As ideologias, então, usam sofismas como purpurina: fácil de jogar, difícil de tirar, e quando você vê está brilhando de um jeito que não pediu.

E, sim, parte da mídia vira fábrica de manchetes que brilham mais que iluminador de influencer,

às vezes com mais purpurina que conteúdo. Cabe ao leitor desconfiar do brilho excessivo.

Moral da história:

Narrativa é como faca de cozinha: corta pão ou dedo. Use com sabedoria. Refaça perguntas.

Duvide de quem fala alto demais. Não aceite queijo sem perguntar quem montou a ratoeira.

E, por amor à democracia e aos seus próprios dedos, não seja o rato voluntário da história.

E assim seguimos, tentando sobreviver às narrativas encantadas, aos sofismas fantasiados e aos queijos suspeitos deixados pelo caminho. Do palanque ao grupo de família, do comercial milagroso ao pastor do algoritmo, todo mundo tem uma historinha pronta esperando você cochilar para morder a isca.

Portanto, respire, pense, revise, duvide, e se a narrativa vier muito polida, muito emocional, muito perfeita… desconfie. História boa demais costuma ter dono oculto, e ratoeira gourmet costuma ter dono faminto.

E agora, para encerrar como manda o figurino, ou melhor, como manda o sambódromo das falácias, aqui vai o sofisma carnavalesco mais famoso do país, aquele que parece inocente, mas empurra você para uma conclusão pronta, sem direito a réplica:

Quem não gosta de samba bom sujeito não é ou é ruim da cabeça ou doente dos pés.”

Se você é bom da cabeça… onde está o sofisma, descubra!


Walter Naime, Arquiteto-urbanista e Empresário

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