PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
HISTÓRIAS DE NASSIF
ENTREVISTADO: LUIZ GUARDA LUIZINHO GONZAGA LEITE
Julho de 2026
No centro da cidade de São Paulo, na Rua Coronel Xavier de Toledo, esquina com a Praça Ramos de Azevedo, em frente ao Teatro Municipal e ao lado do tradicional Mappin — cuja loja de seis andares, repleta de novidades e bens de consumo, atraía diariamente uma multidão de clientes — o intenso fluxo de pedestres e veículos exigiu medidas especiais para organizar a circulação.
No local foram implantadas duas faixas de pedestres paralelas: uma destinada às pessoas que seguiam em um sentido e a outra para aquelas que caminhavam na direção oposta. Ainda assim, devido ao enorme movimento, era indispensável a presença de um guarda de trânsito para coordenar a travessia dos pedestres e o fluxo de veículos, garantindo maior segurança e fluidez ao trânsito.
O nosso entrevistado de hoje é o Guarda Luizinho, que realizou seu trabalho com tanta dedicação e carinho, acabando por conquistar inúmeros admiradores. Trabalhando tendo como meta educar o pedestre e o motorista, com sua simplicidade e criatividade tornou-se um ídolo. Agiu com muito bom humor, sem jamais perder a autoridade que lhe foi conferida pelo Estado.
Luizinho inicia agradecendo pela lembrança, após algumas décadas.
Em que ano você começou a trabalhar na Rua Xavier de Toledo, ao lado do Mappin?
Comecei a trabalhar ali na Xavier de Toledo em 1971 até 1981, foram 11 anos naquele abençoado local, reafirmo que é abençoado porque ali nunca houve um atropelamento ou uma multa! Passavam por ali 1.200.000 (Um milhão e duzentas mil) pessoas por dia. O farol abria e fechava 379 vezes por dia, com 73 (setenta e três) segundos para os veículos 43 (quarenta e três) segundos para os pedestres e 9 (nove) segundos nos pisca alertas dando sinal que o farol ia fechar. O meu maior orgulho é que ninguém nunca foi atropelado naquele cruzamento!
Luizinho, você nasceu em qual localidade?
Sou paraibano, meus pais vieram do Nordeste para São Paulo em 1949, meu pai foi para o interior trabalhar em uma fazenda, eu nasci no dia 06 de dezembro de 1939, quando o meu pai veio para cá em 1949, para uma fazenda nas proximidades de Vera Cruz. Essa fazenda era de Paulo Guerreiro. Ali eu trabalhei com o meu pai até os meus 13 anos, foi quando mudamos para São Paulo, fomos morar na Rua Alfredo Pujol esquina com a Alameda Afonso Schimidt, que na época era o Caminho Chora Menino. Fiquei até 1965 na tinturaria. Servi o exército no CPOR (Centro de Preparação de Oficiais da Reserva). Situado na Rua Alfredo Pujol, 1958. Após sair do CPOR voltei para a tinturaria. Em 1965 ingressei na extinta Guarda Civil.
Quanto tempo você permaneceu na Guarda Civil?
Na Guarda Civil fui para o trânsito. Em 1970 houve a unificação entre a Força Pública e a Guarda Civil. Houve a unificação das polícias, eu podia optar pela Polícia Civil ou pela Polícia Militar. Foram os melhores anos da minha vida! A Unificação deu-se no dia 8 de abril de 1970, Decreto-Lei 217 formando uma polícia só, unindo a Guarda Civil e a Força Pública, resultando na Polícia Militar.
Quais são os nomes dos seus pais?
Meu pai é Pedro Leite de Figueiredo e minha mãe Ideozolith Renovato Leite, nós viemos do Ceará, da cidade de Mauriti. Meu pai era paraibano e a minha mãe cearense. Nós éramos em 12 irmãos, quatro infelizmente faleceram. Quando viemos para são Paulo éramos 8 irmãos. Eu sou o mais novo dos homens, estou com 87 anos! O mais velho está com 94 anos! Ele está vivo graças a Deus! Só um dos meus irmãos faleceu, além dos quatro que tinham falecido ainda muito cedo. Eu ainda dirijo, tenho uma vida normal.
Como Polícia Militar você foi trabalhar aonde?
A minha Companhia era a Primeira Companhia do Comando de Policiamento de Trânsito 1ºCPTRAN, que abrange todos os cruzamentos do centro de São Paulo. Trabalhei nas áreas de segurança da Polícia Federal, Detran, Degran, Pátio do Colégio. Na área de segurança em que eu trabalhei só era permitido o estacionamento de veículos devidamente autorizados. Eram os carros do Detran, da Polícia Federal. Mas sempre tinha alguém para dar uma encostadinha. Teve um caso interessante em que o cantor e ator Moacyr Franco pediu-me para estacionar no Pátio do Colégio, na época ele estava com um automóvel Camaro cinza. Ele pediu para estacionar ali no Pátio do Colégio. Disse-me: “Seu guarda! Só um minuto! Eu brinquei com ele, quando a pessoa tinha dor de dente, o nome do remédio era “1 Minuto”. Eu disse-lhe: “Um minuto é para dor de dente!”. Ele deu um ar de riso e disse-me: “Seu guarda, eu vou rapidinho!”. Ele ia na Caixa Econômica que ficava bem próxima. Disse-lhe: “O senhor quer 5 minutos? E 20 minutos está bom?”. Disse que estava bom, só que demorou mais de meia hora! Com isso ele acostumou e sempre estacionava o carro comigo!
Você tinha que manobrar algum carro?
Ali era o Primeiro Distrito Policial, a Companhia do CET, a Companhia de Gás, e tinha o Pronto Socorro também. Antigamente o Pronto Socorro era no Pátio do Colégio. O pessoal pedia para estacionar eu mandava que ele estacionasse. Quando chegava um delegado que não tinha vaga, eu pedia para ele colocar o seu carro atrás de outro que já estava estacionado. Eu recomendava que deixasse a chave no contato ou no cinzeiro do carro. Eu afirmava que não teria problema em roubarem o carro. Quando o carro da frente queria sair, o carro de trás tinha que ser manobrado. Eu tirava o carro do delegado e o outro saía!
Você dirigiu o carro do Moacyr Franco?
Cheguei a tirar do local! Era um Mustang! Chegava a ter três carros, um atrás do outro!
Saí de lá e fui para a área de segurança da Polícia Federal, na Rua Xavier de Toledo, 280. Ali tinha uma área de segurança, quem encostava naquele local eram os policiais federais. Agi da mesma maneira, fiz um trabalho de aproximação com a população, não deixava que todos os carros particulares estacionassem ali, quando o caso era justificável eu abria uma exceção.
E quando é que você foi na esquina da Xavier de Toledo, ao lado do Mappin?
Eu fui para a esquina em janeiro de 1971. Fiquei trabalhando por 11 anos naquela esquina! Quando eu cheguei os pedestres usavam a terceira faixa do leito carroçável da Rua Xavier de Toledo! Tanto do lado direito e em frente ao Mappin, como do lado esquerdo em frente a Light, com isso eles afunilavam o trânsito. O trânsito congestionava dali para trás, mas o pedestre estava pondo em risco a vida dele! Eu comecei a pedir para os pedestres afastarem-se para a calçada. Ouvi muitas vezes pedestre falando: “Oh Seu Guarda! O senhor é bobo?”. Eu só argumentava: “Quem está no meio da rua é você!”. As pessoas foram se afastando! Se afastando! Até chegar a esse ponto: nenhum pedestre fora da calçada! Luizinho mostra uma enorme fotografia provando suas palavras. A multidão aguardando pacientemente na calçada a hora de cruzar a rua! Nenhum pedestre com o pé fora da calçada! Sempre fui a favor da prevenção, orientação e educação no lugar de punição! Os veículos não avançavam sobre a faixa dos pedestres.
Essa opção sua de trabalhar com o disciplinamento dos pedestres e dos motoristas, além de cumprir a lei fez com que a sua atuação fosse mais tranquila?
Não era exatamente uma orquestra afinada! Sempre tinha um ou outro que reclamava. Teve um caso de um pedestre, que junto com a namorada, insistia em aguardar na via, esperando os veículos passarem e eles com os pés no leito da rua. Correndo um risco sem necessidade. Olhei no relógio, eram cerca de 14:30 horas. Quando pedi que eles aguardassem com os pés na calçada, o rapaz me perguntou: “O senhor é bobo Seu Guarda?”. Achei melhor não retrucar, dei apenas um sorriso. Fiquei pensando qual seria a melhor atitude a tomar com relação àqueles dois pedestres. No dia seguinte, no mesmo horário, fizeram a mesma coisa. Atravessar a Rua Xavier de Toledo fazia parte do cotidiano deles. No terceiro dia, passei no Largo São Francisco, onde tinha uma casa de tintas. Comprei uma latinha de tinta vermelha, fui mais cedo para o farol lá no Mappin, o casal fazia sempre o mesmo trajeto e no mesmo horário, despejei a lata de tinta no local aproximado e imediações por onde eles passavam. Cobri a tinta com jornais. O povo passava, via, perguntava, eu sempre dava uma desculpa. Quando eram umas 14:00 horas mais ou menos, esse casal apareceu, e já desceram da calçada aguardando o trânsito parar. Eu dirigi-me a eles e perguntei: “Dá para vocês aguardarem na calçada, por gentileza?”. Foi então que a moça falou: “O senhor é bobo, seu guarda?”. Eu disse com a maior naturalidade: “É que a senhora está pisando no jornal que está cobrindo o sangue da moça que foi atropelada aí!” Ela deu um salto e caiu para trás! Nunca mais eles desceram da calçada! Eu não dei risada! Sou policial e não podia rir!
Em uma outra vez, um rapaz atravessou a rua, quis atravessar rápido, eu pedi para ele aguardar o farol. Ele disse-me: “Eu sei o que estou fazendo!” Eu disse-lhe: “Se o senhor soubesse o que está fazendo, o senhor não iria atravessar a rua no meio dos carros.” Ele insistiu, argumentou. Tinha uma criança com cerca de 10 anos de idade, bem próxima a nós, acompanhada da mãe. Pedi licença para a mãe e perguntei à criança: “ Você acha que o rapaz está certo?” O menino respondeu: “Não está não seu guarda! Ele está errado!” Na hora o rapaz mudou de cor! Ficou vermelho de vergonha.
Existe aqueles que se colocam acima de todos?
Infelizmente às vezes aparece alguém. Teve um caso em que um rapaz estendeu o dedo em minha direção e disse-me: “Seu guarda! O Senhor sabe quem é o meu pai?”. Eu conversei com ele sobre o risco que ele corria, sem necessidade. E pela terceira vez ele me apontou o dedo e perguntou-me: “O senhor sabe quem é o meu pai?”. Eu disse-lhe: “Meu amigo, o Sr. identificou-se como advogado, tem 36 anos de idade, é estagiário de Direito, naquele tempo eu fazia o colegial, estudava junto com a minha esposa, eu tinha a carteira de estudante, mostrei a ele, e disse-lhe: ”Estudante por estudante empatou! Só que você está bem mais avançado, você já é estagiário de Direito, e continua estudando. Você vem perguntar para mim quem é o seu pai? Essa pergunta você tem que fazer para a sua mãe! Teve muitas passagens interessantes de pedestres ali. Teve um arquiteto que tentou me agredir, teve uma Motocicleta Garelli que tentou passar no sinal vermelho, eu não deixei. Acabei sendo atingido, machuquei a perna, fui para o pronto socorro, mas eu encarava tudo com naturalidade. Eu não usava bala no revólver. Eu usava o revólver porque era obrigado.
Porque você não usava bala no revólver?
Os pedestres, como sinal de amizade, puxavam a minha camisa, puxavam o capacete, brincavam comigo, demonstravam o sentimento de amizade, e um revolver carregado pode tornar-se um perigo. Diversas vezes fui carregado pelo povo! (Luizinho mostra uma foto onde está sendo carregado por uma multidão). Essa fotografia foi tirada após a Polícia Militar me tirar daquele cruzamento para fazer rodízio, um procedimento normal. Fizeram um abaixo assinado com 170.000 (Cento e setenta mil assinaturas). Tudo que eu disser está documentado, essa é uma matéria do jornal “O Estado de São Paulo”. Caso eu estivesse com o revolver carregado, se em um momento desses a minha arma disparasse, poderia acontecer uma tragédia!
Você fazia os pedestres passarem por dentro dos carros?
Não. Foi assim. Eu sou a favor da prevenção e educação no lugar de punição. Se os pedestres estão todos na calçada, os carros tem que ficar fora da faixa de retenção. Eu mentalizei o farol, sabia a hora em que o farol abria e fechava. Em uma ocasião um carro parou em cima da faixa, uma moça falou para mim: “Seu guarda, o senhor mandou todo mundo subir na calçada e tem um carro que parou em cima da faixa.” Eu disse-lhe: “Não tem problema! Vamos resolver isso daí!” Cheguei no motorista e falei: “O senhor é um infrator de trânsito!”. Ele me perguntou: “E agora seu guarda, o que que eu faço?” Disse-lhe: “Por gentileza! O senhor desce e o povo passa por dentro do seu carro!” Muitas pessoas passaram por dentro do carro! Até hoje recebo mensagens, inclusive de pessoas que estão na França, Paraguai, Bolívia, Inglaterra, Japão, Argentina. Da Inglaterra recebi um postal. Eu sabia a hora em que o farol abria e fechava. Eu perguntava para a pessoa: “Você está com pressa?” Ela respondia: “Estou!”. Como eu tinha mentalizado o tempo. Eu pegava na mão do pedestre dizia, conta de 1 a 3 que o farol fecha! Ele contava 1,2 e olhava na minha mão, eu dizia: não é na minha mão que você tem que olhar, é no farol!”. O farol fechava! Isso vem a favor da prevenção, orientação e educação no lugar de punição! Consegui os meus objetivos, ninguém nunca foi atropelado naquele cruzamento e também não fiz nenhuma multa.
Você virou um ídolo na sua área de serviço!
O carinho do povo é muito grande! Segunda feira recebi 6.ooo mensagens. Cada um conta a sua própria história! Uns contam que eu peguei na mão dele para atravessar a rua! Tem motorista que se lembra de ter parado sobre a faixa de pedestres e eu pedir para que ele saísse do carro e atravessasse por dentro do carro dele! A Lais era uma menina de 16 anos, ela ficava o dia todo parada ali no farol, junto com a rapaziada, ela fez uma faixa “Guarda Luizinho: alegria da sua fiel!” A Lais mora nas Perdizes! Outro dia coloquei uma mensagem, eu gostaria de encontrar com essa menina. Hoje elã já deve ter seus 60 a 65 anos! Quem era Office-boy naquele tempo, hoje tem de 63 a 65 anos! Eles ficavam o dia todo me vendo trabalhar! Só Deus sabe quanta alegria eu tive ali!
Você volta de vez em quando lá?
Volto! Gravei lá para algumas emissoras de televisão, eles pedem para que eu vá fardado. Uma das vezes fui com o Amorim Filho. Um dos carros parou em cima da faixa de pedestres. Um pedestre passou por dentro do veículo! Eu fiz isso novamente! Esse mesmo pedestre tinha passado em 1980 por dentro de um carro, agora passou novamente!
Algumas pessoas chegam a chorar de saudade?
Tem pessoas que se lembram daqueles tempos. Eu também chego a me emocionar. Tem pedestre que me mandou uma mensagem, contando que eu o trouxe no colo quando ele era garoto, e como ele atravessou no sinal fechado, eu trouxe de volta, para que ele esperasse o sinal abrir para ele passar! Eles mandam para mim essas mensagens. Minhas páginas são: “Luizinho Gonzaga” e “Guarda Luizinho”. Lá tem todas essas mensagens desse pessoal! Agora eles estão pedindo para fazer uma estátua minha em frente ao Mappin.
Você alterou o seu nome?
Meu nome civil era Luiz Gonzaga Leite, em agradecimento ao povo, eles me apelidaram “Guarda Luizinho” , hoje o meu nome registrado em cartório é : Luiz Gonzaga Guarda Luizinho Leite.
Você tem uma torcida quase igual à do Corinthians!
Nem tanto! A torcida do Corinthians é uma imensidão!
O povo ficava parado, quando um pedestre atravessava no meio dos carros, eu esperava o pedestre atravessar, chegava do outro lado, pegava na mão dele e levava de volta! Aí parava o trânsito, eu então dizia: Agora o senhor pode passar!”. Quando o pedestre descia da calçada muitos que estavam aguardando abrir o sinal diziam: “Olha lá Seu Luizinho! Ele desceu!”, na hora a pessoas subiam na calçada!
E a história da “caveirinha”?
(Luizinho pega uma miniatura em plástico rígido de um esqueleto humano completo, com todos os movimentos da ossada).
O pedestre atravessou a rua, no meio dos carros, chegou do outro lado. Eu pedia a ele um documento. De posse do seu documento, eu mostrava o esqueleto completo e perguntava: “O senhor quer ficar desse jeito?” É o símbolo do pedestre apressado! Quando fiz pela primeira vez, todo mundo deu risada! Com isso houve a conscientização de que se atravessasse com o sinal fechado o guarda chamaria a atenção do pedestre. Pelo fato de São Paulo ser muito grande, às vezes um casal passava correndo, eu parava ambos, e pegava na mão dele e na mão dela, eu ia entre os dois, quando chegava do outro lado da rua, parava o trânsito e dizia! “– Agora vocês podem passar!”!
Teve o caso de um cachorrinho, você sabe que os cachorrinhos são muito inteligentes, ele queria atravessar a rua. Ele ia e vinha, percebia que vinha um veículo ele voltava, fui lá e parei o trânsito, quando o cachorro foi atravessar. O povo quis aproveitar “a ocasião”, eu disse:” Vocês não! Só o cachorrinho!!” E só o cachorro atravessou! Eu adorava trabalhar ao lado dos pedestres!
Você foi convocado por um desembargador?
O desembargador Rui Carvalhaes me chamou no Tribunal de Justiça, quando cheguei lá, estava ansioso por saber o que teria acontecido. Isso foi a uns dois anos. Quando cheguei no Tribunal de Justiça, me apresentei a secretária dele, dizendo que tinha sido chamado, ela pediu para aguardar um minuto e foi avisar ao desembargador que eu estava lá. Quando ele chegou, ele reuniu os funcionários, e disse-me: “Eu chamei o senhor aqui, porque quando eu era adolescente, você mostrou uma caveirinha”!! E me presenteou com uma caixa de caveirinha! Luizinho mostra uma fotografia, onde aparece a faixa escrita: “Guarda Luisinho! Alegria da sua fiel!”, essa jovem que esta junto aos demais, é a Lais.
Você recebeu também o título de cidadão paulistano?
Recebi algumas homenagens, a de Cidadão Paulistano foi uma iniciativa do vereador Paulo Rui Oliveira, recebi o título Policial Símbolo de 1981 da Raça Negra, Recebi Homenagem do Rotary Clube, Guarda Luizinho Símbolo de São Paulo. Recebi homenagem de vários Conseg. Conseg da Casa Verde, Conseg do Imirim, Parada Inglesa, mas a maior homenagem que eu recebi é ninguém ter sido atropelado na minha frente! Ali na Xavier de Toledo passavam 1.200.000 pessoas por dia segundo estatística do Jornal “O Estado de São Paulo”, uma matéria feita em 1976 por Luiz Fernando Silva Pinto, que foi correspondente da Globo nos Estados Unidos.
Passavam muitos ônibus naquele trecho?
Passavam bastante! Eram várias linhas de ônibus! Eram ônibus que iam para a Praça do Patriarca, Largo Paissandu, Praça Ramos. Quando faltava energia, os semáforos não funcionavam, eu coordenava o movimento com indicações das minhas mãos e braços! Conseguia controlar a mão que descia da Xavier de Toledo, que entrava à direita no Viaduto do Chá, Vinha do Viaduto do Chá, e descia para o Largo Paissandu, que vinha da 24 de Maio, da 7 de Abril, eu controlava aquele trânsito sozinho. Graças a Deus!
Como a Corporação via você?
Nunca tive problema com a Corporação! Você sabe que tem uns que gostam, outros não aceitam. Sempre procurei ter bom humor. Teve alguns aborrecimentos, isso é natural. Eu sempre coloquei como objetivo o bem estar do pedestre. uma situação corriqueira, um taxi para deixar ou entrar um passageiro. O veiculo tinha que parar. Isso não era proibido. O taxi ficar esperando um passageiro que buscasse transporte. Isso é estacionar, era proibido. Eu poderia aplicar uma multa em um taxista que parou para o passageiro descer. Só que o bom senso fala mais alto. É muito difícil para aquele taxista receber uma multa, aquele valor pesa no seu orçamento, e ele está procurando dar conforto ao passageiro.
Luizinho, você é casado?
Tive uma grande esposa, Marli de Azevedo Leite. Tenho dois filhos: Paulo Eduardo de Azevedo Leite é economista, minha filha é assistente social e advogada. Eu fiz Direito junto com a minha esposa, eu fui cursar em uma faculdade em Itapetininga e ela cursou na FMU. Ela era uma grande esposa, muito bonita, muito inteligente e sou o que sou graças a ela. Minha esposa, Marli, faleceu cedo, com apenas 67 anos. Nesses 12 anos não teve um dia em que eu não me lembrasse dela. Ela foi muito importante na minha vida. Teve que parar de estudar cedo porque cuidava da avó. Um dia ela disse que queria estudar. Eu disse que ia ver se arrumava uma bolsa para ela. Conversando com Joseval Peixoto, ele me indicou o colégio, cheguei em casa e disse-lhe: “Marli, arrumei uma bolsa de estudo para você!” Ela disse-me: “Para mim você arrumou uma bolsa? Você tem que arrumar duas, você vai junto comigo!”. Aí o Joseval, a quem sou muito grato, conseguiu as duas bolsas para nós. Estudamos no Colégio Siqueira Campos, que é no Largo do Cambuci. Terminamos o ensino médio lá, fizemos o vestibular, ela veio para a FMU e ei fui para a Fundação Instituto Itapetininguense de Ensino Superior, Karnig Bazarian.
Isso exigiu muita determinação e esforço!
Para conseguir seu objetivo, você tem que fazer o esforço necessário. Para eu conseguir colocar os pedestres na calçada foi muito difícil. Com a Graça de Deus eu consegui! Para o bem deles! Se o pedestre respeitasse o Trânsito como eles respeitam a altura, ninguém seria atropelado! Porque ninguém pula do 3º, 5º andar? Da mesma forma, se ele não respeitar o trânsito, ele estará pondo em risco a vida dele.
Olhando o trânsito atualmente e o trânsito daquela época, você pode fazer um comparativo?
O trânsito em São Paulo sempre foi caótico! No meu tempo o trânsito era ruim porque nós não tínhamos grandes avenidas, não tínhamos esses viadutos. Você para vir da radial Leste para o centro levava de 3 a 4 horas, que é o tempo que você leva hoje com todos esses benefícios que têm! Para melhorar o trânsito não é muito difícil, tem que ter boa vontade! Vou falar do Mappin. Quando o farol na frente estava verde, o motorista avançava o sinal e ficava em cima da faixa, então eu comecei a segurar o trânsito um pouco antes do farol fechar, o motorista dizia: “Seu Guarda o farol está verde!” Eu perguntava se ele iria conseguir passar. Na verdade, ele iria impedir que o trânsito no cruzamento conseguisse passar! Eu segurava, quando o sinal abria e o trânsito escoava lá na frente, eu soltava o trânsito!
Você conheceu o Dr. Antonio Ermírio de Moraes?
Parava lá! Ficava me vendo trabalhar! Encostava na parede do Mappin com aquele famoso paletó que teimava em não ficar alinhado! Me cumprimentavam! Ademar de Barros Filho era outro que às vezes parava para olhar. O Tonico da dupla Tonico e Tinoco. Carmem Silva, Nelson Ned,Tony Tornado, Luiz Gonzaga. Muitas personalidades passaram por lá e conversaram comigo. Silvio Santos parou no cruzamento, o Jô soares, Hebe Camargo. Estive em praticamente todas as rádios de São Paulo, no Jô Soares fui três vezes. Estive no programa do Silvio Santos, da Hebe Camargo.
Você trouxe um material interessante, é algum livreto?
É uma cartilha, com dimensões e cores atraentes, eu só trabalhei com mensagens. Não trabalhava com talão de multa. Sempre andei com um guia, o famoso Guia Levi, se você quisesse saber aonde ficava uma rua eu tinha como informar! Pelo guia eu dava o endereço e aonde você tinha que descer do ônibus. Quando você vai dar uma informação tem que dar a informação exata. A Rua Alfredo Pujol começa na Rua Voluntários da Pátria e termina na Rua Leão XIII. Ela termina na Casa Verde, divisa com Jardim São Bento. (Nota: A Avenida Sapopemba tem cerca de 42 quilômetros de comprimento, começa na capital, passa por muitos bairros e cidades vizinhas).
Luizinho, e o seu livro?
Foi feito um livro comigo, que conta a minha história. Ainda restam alguns exemplares. Pretendo, em breve, lançar uma segunda edição que deverá ter agregado relatos mais completos sobre Guarda Luizinho – Ícone de São Paulo- HEROI DO povo BRASILEIRO.
Luizinho, qual é o seu lazer?
É conversar com os pedestres por incrível que pareça. Fico até duas, três horas da manhã respondendo para os pedestres!
O pessoal escreve ou telefona?
Mandam muitas mensagens! Inclusive mensagens de vários países: Inglaterra, Japão, França!
Os guardas da Inglaterra são muito educados?
Em relação a Inglaterra, tenho um fato curioso. Eu estava trabalhando na Xavier de Toledo, uma moça foi atravessar a rua, eu disse-lhe: “Por favor, aguarde o farol! Você está com pressa?” Ela disse que tinha pressa, precisava fazer a janta! Eu disse-lhe, espere um minutinho só! Fiquei conversando com ela, quando o farol ia fechar, disse-lhe: “Conte de 1 a 3 que o farol fecha!”. Ela ficou olhando para mim. Eu disse-lhe: “Vou fechar o trânsito especialmente para você!” O farol ia fechar, dei sinal e disse: “Para! Para! Para que a moça vai fazer janta!” Todo mundo deu risada, ela deu risada também. Após alguns meses, recebi um postal da Inglaterra, com os seguintes dizeres: “Ao Guarda Policial Militar Guarda Luizinho da Policia Militar de São Paulo: De uma pedestre que o senhor parou o trânsito para fazer a janta mais cedo! Aqui em Londres os guardas são amáveis, mas o senhor ganha fácil deles”. Tenho isso tudo documentado. No Japão há um cruzamento em que passam 3.000.000
(Três milhões) de pessoas por dia.
Aonde eu trabalhei, na Xavier de Toledo, e no decorrer desses 11 anos, há um cálculo estimado de que nesse período passaram 396.000.000 (Trezentos e noventa e seis milhões de pessoas).
Quase o dobro da população do Brasil!
Um advogado questionou esse número expressivo. O centro de São Paulo era o coração financeiro, só o Mappin concentrava um enorme movimento, outros magazines de porte como Mesbla, lojas de renome, restaurantes, livrarias, cinemas. Tudo tinha na região central como foco. Outro fator é que as pessoas atravessavam a Rua Xavier de Toledo várias vezes por dia. Iam aos bancos, restaurantes, os despachos de processos junto ao fórum eram físicos. O maior centro de telefone público, para ligações interurbanas ficava na Rua 7 de Abril. E geralmente levavam horas para serem realizadas.
Você é religioso Luizinho?
Sou religioso e respeito todas as religiões! Vou muito nas Igrejas Evangélicas, os pastores me convidam, falo sempre de trânsito. Os padres me convidam, falo lá na frente. Devemos respeitar todas as religiões!
Você chegou a frequentar carnaval?
Eu ia muito com a minha esposa! No carnaval todos os anos nós íamos ao salão! Íamos em vários clubes: Espéria, Tietê, Associação da Polícia Militar. Na época era Guarda Civil ainda! Eu gostava muito de assistir Luta Livre, era diferente da que é praticada atualmente! Por falar em Luta Livre, em minha opinião, o Ministério Público deveria ver essa condição atual de Luta Livre! Você vê que os lutadores ficam ensanguentados, o lutador toma um soco no rosto, cai, o lutador que está com a vantagem, passa a massacrar o adversário que já está em condições desfavoráveis, por diversas vezes já vi o lutador que vence, sair ensanguentado e abraçar uma criança! Aquela criança, abraçando um indivíduo ensanguentado não é uma boa imagem!
Você é da época do Edson “Bolinha” Coury que foi juiz de luta livre, antes de ter um programa de calouros na televisão?
Conheci! Conheci Vicente Leporace, José Paulo de Andrade. O José Paulo de Andrade em seu programa “O Pulo do Gato”, o programa dele começava às 5:30 da manhã, o povo passava na Xavier de Toledo, onde eu estava trabalhando e diziam: “Eu ouvi o José Paulo de Andrade falando sobre você, agora! Naquele tempo não tinha a facilidade de fotografar e nem as redes sociais que existem hoje! quem quisesse fotografar tinha que levar uma máquina específica para fotografar! Teve um rapazinho que pediu para tirar uma foto comigo. Ele me perguntou se eu deixava ele tirar uma foto me abraçando. Disse-lhe que poderia tirar a foto. Ele disse-me: “ Vou em casa e vou trazer a maquina fotográfica, o senhor vai estar aqui?” . Disse-lhe que iria permanecer ali trabalhando. Ele demorou uns 15 dias para voltar! Ele disse-me: “Deixa eu por o seu chapéu!” Eu coloquei o capacete na cabeça dele. Foi muito emocionante, o menino chorou. Ele disse-me: “Seu guarda, eu nunca pensei em abraçar um polícia!”. (O momento histórico em que o país passava, estava abrandando o temor popular pelas Forças Militares).
O que está escrito no seu capacete? É uma Força Especial?
Isso foi feito por um rapaz, o nome dele é Jatir! Eu já tinha saído da PM, ele pediu o meu capacete e colocou Guarda Luizinho! Nas faixas que estendiam na Xavier de Toledo, colocavam lá: “Guarda Luizinho. Amigo da sua fiel!” Luizinho apresenta o calendário de 2025 com ele na capa. Ele então apresenta outro calendário, de 2026, com uma outra fotografia sua. Sem dúvida são homenagens merecidas, Os calendários foram feitos pela Associação dos Policiais Militares o outro foi feito pelo Comando do Policiamento de Trânsito.
Para adquirir o seu livro como devo fazer?
O PIX é 997854684. O interessado deve mandar o nome completo, Rua, número, Cidade, Estado e CEP. Eu envio o livro para a pessoa, pelo SEDEX. Custa R$ 70,00. O SEDEX aumentou agora.
Luizinho, tem mais alguma coisa que você gostaria de acrescentar?
Na verdade, muita coisa se passou em todos esses anos. Fizemos um apanhado geral, tem muita coisa que eu ia falar, mas acabei me esquecendo. Quando eu saí da PM fui por 18 anos Comissário de Menores em Santo Amaro, ajudei muita gente em Santo Amaro, principalmente aquelas mães mais necessitadas, que chegavam no Fórum. Você sabe que o Comissário de Menores é o braço direito do Juiz. Após 18 anos, me chamaram para concorrer como Conselheiro Tutelar. Fui Conselheiro por 4 ( quatro) gestões aqui em Santana. Eu disponibilizava para as pessoas necessitadas, todas foram atendidas com cadeiras de rodas, cama hospitalar, tem um rapaz que providenciei uma cama hospitalar, faz 15 anos. Até hoje ele está na cama, já pensou se esse rapaz não tivesse essa cama hospitalar? Empregos para adolescentes, que é o que mais quero! O que mais gosto é encaminhar o adolescente para o primeiro emprego! Todo adolescente que eu encaminhava para o primeiro emprego, tem muitos que estão trabalhando até hoje! Têm 10 advogados que eu encaminhei para o primeiro emprego: na Caixa Econômica, Banco do Brasil, Infraer. Feitos os estudos, entraram para a faculdade e são advogados hoje. Quem sabe, no ano que vem eu volte para o conselho tutelar!
Vou aproveitar a ocasião e anunciar que estou em busca de interessados em fazer esta cartilha para crianças, usa uma linguagem apropriada, é ilustrada, com formações objetivas e claras. Tem um apelo de ser sintética e com um formato muito interessante, foi cuidadosamente elaborada, para ser simples e atrativa. Quem tem que gostar de ler é a criança! Se nossas autoridades se preocupassem com as nossas crianças em ministrar conceitos básicos, não haveria necessidade de dar aulas e conceitos de trânsito para atravessar uma rua. Como respeitar a legislação. Como aguardar um farol para atravessar uma rua. Nós teríamos um transito mais humano e menos violento do que o atual. Basta pegar as estatísticas e veremos que morrem mais pessoas atropeladas do que na guerra! No Corpus Christi em São Paulo morreram 9 pessoas, no Brasil morreram 87! Não é admissível uma perua escolar bater em qualquer lugar! Não é admissível que um ônibus de transporte coletivo capote! Precisamos de fiscalização para que tantas vidas não sejam ceifadas precocemente! Ônibus carrega passageiro! Ele tem que ser fiscalizado!
Quando são 19 horas, já está escuro. Quando vinha um carro com a luz apagada eu mandava parar. O motorista perguntava: “O que foi seu guarda: Eu dizia: “Eu parei você só para perguntar as horas!”. “Perguntar que horas são seu guarda? São sete e meia, porque?” eu dizia: “Está na hora do senhor acender a lanterna!”. Outro motorista vinha com o braço para fora do veículo. Eu pedia para ele parar. Ele perguntava: “O que foi seu guarda?”. Eu dizia: “É que o senhor esqueceu de por o braço para dentro!”.
E fumar dirigindo?
Essa acho que foi uma lei muito boa! Essa foi uma lei do Maluf.
O senhor conheceu o Maluf?
Conheci! Tenho fotos com ele, gostava e gosto muito dele! Se ele estivesse hoje no poder, iria proibir esse transporte de animais com a cabeça para fora dos veículos! E tem cachorro que late de dentro do carro! Um cachorro que late assusta as pessoas!
Na Praça do Patriarca tinha o Futboys! Eu estacionava o meu carro e descia. Umas duas ou três vezes apitei jogo lá! Era muito interessante!
Você foi juiz de futebol também?
Fui também! Apitava jogo da Polícia Militar. E sem falsa modéstia, apitava muito bem! Ia apitar fora, no interior de São Paulo. Era jogo de várzea, mas era muito bem organizado.
Luizinho, você conseguiu impor respeito sem ser truculento.
Você sabe que o povo é estressado de um lado e do outro, e com um simples sorriso a gente consegue nossos objetivos! Um simples sorriso consola uma dor e aquece um coração!
Essa é a sua receita?
Exato! Todos nós temos que ser bem tratados! Violência gera violência! Como Policial Militar, um rapaz uma vez deu um soco na minha cabeça. Lá na frente do Mappin! Quando eu fui em cima dele escutei: “Luizinho! Você não é disso!” Era o Diretor da Casa de Detenção! Pegaram o indivíduo, deram uma surra nele, quiseram até jogar ele de cima do viaduto, eu não permiti. Ali aconteceu muita coisa.
Luizinho mostra uma fotografia, no meio da Rua Xavier dê Toledo, ao seu lado um homem com aspecto de maltrapilho.
Ele é um morador de rua! Ele queria apitar! Eu ficava no intervalo entre uma faixa e outra, de pedestres. Quando o farol ia fechar para os veículos eu gritava para ele: Apita! Ele dava uns 10 apitos no meio da rua! Era uma alegria só! O nome dele é João.
Era uma forma de você descontrair tanto quem estava passando pelo local. E também alegrava uma pessoa que já não tinha mais nada na vida, que era o caso do morador de rua.
Um dia um moço chegou lá e disse-me: “Seu guarda! Nós estamos fazendo um abaixo assinado para tirar o senhor daqui! Ele era o Relações Públicas da Light! Vocês querem me tirar daqui porquê? Ele disse-me: “Dá uma olhadinha nas janelas do edifício da nossa empresa!”. Quando olhei nas janelas, muitos funcionários estavam olhando esse senhor apitando! Em vez de trabalharem ficavam me vendo trabalhar! Teve um caso de uma menina, ela estava chorando no farol, Marilza era o nome dela. Perguntei-lhe: “Por que você está chorando?” “Seu guarda, eu fui mandada embora do meu emprego! O senhor não quer falar com o meu patrão?”. Perguntei-lhe porque tinha sido despedida. Ela disse-me: “-Eu não fiz nada!”. Disse-lhe: “Se você não fez nada ele não pode despedi-la!” Ela insistiu: “Vai lá pedir para ele me readmitir!”. Eu disse-lhe: “Primeiro vamos ver o conteúdo da história!” Eu disse-lhe: “Vou ver para você!”. Ela trabalhava no Edifício Conde de Prates, na Rua Líbero Badaró, 293, 10º andar. Saí do serviço, fui até lá. Disse que queria falar com o chefe do escritório. Eis que um senhor de terno e gravata me perguntou: “O que o senhor quer, Seu Guarda! Contei a história para ele, eu nunca fiz isso, falei para ele, mas ela contou-me, fiquei com dó. Se o senhor não quer readmiti-la. Ela disse que não fez nada! Realmente ela tinha razão, ela não fez nada! Entre aqui, entrei em uma sala tinha uma pilha de processos! Ele disse-me: “O senhor está vendo esses processos aqui? Ela não entregou nenhum! Ficou vendo o senhor trabalhar a tarde todinha! Se ela quiser ver o senhor, não tem problema! Mas o serviço em primeiro lugar! Quando fui me despedir, ele disse-me: “Vou readmiti-la! Ele a readmitiu e mais tarde ela foi chefe desse escritório!
Luizinho, se você cobrasse Ingresso, você seria milionário!
São 50 anos que já estou fora da PM. Ser lembrado após todo esse tempo é gratificante e emocionante.
Eu trabalhei em vários bairros de São Paulo: Lapa, Penha, São Miguel, Santana… Ia trabalhar de ônibus. Quando chegava para trabalhar em um novo local, em um cruzamento de ruas, naquele tempo não havia o resgate de feridos como existe hoje, era precário, telefone só dispúnhamos do orelhão, e não era todo lugar que existia. Se quisesse um taxi tinha que ir até o ponto aonde eles ficavam aguardando o passageiro! As farmácias ficavam distantes, era a cada 1 ou 2 quilômetros uma da outra. A primeira coisa que eu fazia quando era destacado para um novo cruzamento, como por exemplo no Largo Padre Damião, fica na Vila Prudente. O primeiro dia em que fui trabalhar lá, entrei em uma padaria, isso há 60 anos atrás! Conversei com o Cristóvão. Perguntava aonde era o Pronto Socorro, onde havia uma farmácia, em que local ficava o ponto de ônibus mais próximo. Aonde tinha um telefone público. Procurava me informar qual era o nome das ruas transversais. Assim que eu acabei de me informar, uma pessoa perguntou-me, aonde era a Linhas Corrente! Eu disse-lhe: “É aqui na Estrada da Vila Ema!” Quem pergunta quer saber!
Minha mensagem é de que eu adorava e amava trabalhar com os pedestres! Os pedestres, assim como você que me presenciou trabalhando, são os meus maiores aliados! Minha mensagem para você e todos os pedestres: “Se atravessar a rua e você tiver pressa, lembre-se de que a pressa sempre existirá, mas é a mesma pressa para que você deixe de existir. Atravesse a rua com muita atenção e cautela, viva muito mais ao lado dos amigos e familiares”.

