PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
Jornalista e Radialista João Umberto Nassif

ENTREVISTADA: MARLY DE CAMPOS CRISPINIANO

GILBERTO E MARLY
Gilberto e Marly foram vizinhos de condomínio por treze anos. Durante todo esse tempo, a vida seguia paralela, até que descobriram — já na maturidade — que eram almas gêmeas. Um acidente doméstico, inesperado, tornou-se o ponto de virada que os aproximou definitivamente. Juntos, aprenderam que o amor verdadeiro não tem pressa e que os relacionamentos mais profundos nascem quando os corações finalmente se encontram.
Marly de Campos Crispiniano é daquelas pessoas raras, que deixam marcas profundas por onde passam. Dona de uma personalidade firme e determinada, alia segurança a uma acolhida sincera: sabe ouvir com atenção e oferecer as palavras exatas no momento certo. Sua doçura é natural e envolvente.
Disciplinada e forte por formação e essência, Marly sempre soube o que queria e jamais abriu mão de lutar por seus ideais. Mesmo diante das adversidades, quando a caminhada se torna árdua e desafiadora, ela segue adiante sem esmorecer, guiada pela coragem e pela convicção.
Aos 88 anos de idade, impressiona por seu dinamismo, vitalidade e memória admirável. Recorda números, siglas e detalhes do passado e do presente com absoluta lucidez. É o retrato vivo de alguém que cumpriu sua missão com dignidade e hoje assume a vida com alegria, leveza e disposição.
Marly de Campos Crispiniano é, acima de tudo, uma pessoa excepcional — um ser humano especial, cuja trajetória inspira, ensina e emociona.
A senhora é natural de Piracicaba?
Não, eu nasci em Araçatuba, Estado de São Paulo. Nasci a 24 de outubro de 1938. Meu pai chamava-se Maximiano Crispiniano e a minha mãe Edna de Campos Crispiniano.
Qual era a atividade profissional do pai da senhora?
O meu pai foi comerciante. Ele foi sócio em uma grande empresa que trabalhava no ramo de secos e molhados de Araçatuba. Ele veio do Nordeste. Ele era um homem de muita fibra, muita determinação. Quando veio do Nordeste, seguiu o mesmo caminho de muitos nordestinos que era muito comum na época: “sentou praça”: entrou para a Polícia Militar. Ele foi lutar na Revolução de 1932. Frente de batalha ele levou um tiro em uma perna. Em 1935 meus pais se casaram, eu nasci em 1938. Sou a filha única deles.
A senhora foi muito mimada como filha única?
Me criaram como uma princesa! Porém a minha mãe sempre me dizia: “- Você é filha única, não estamos criando você para mim ou para o seu pai, estamos criando-a para você conviver com o mundo! Saber viver com todas as pessoas! É isso que eu quero de você!”. Portanto eu não fui mimada, fui sim muito querida! Tinha a hora do carinho, tinha a hora da palmada! Naquele tempo tinha a abençoada palmada!
O pai da senhora ficou por quanto tempo na então Força Pública do Estado de São Paulo que em 9 de abril de 1970 passou a se chamar Polícia Militar do Estado de São Paulo?
Ele deu baixa, tinha ficado com sequela em função do tiro que levou na Revolução. Ele deu baixa logo que eu nasci. Lembro-me de que ele contava ter sido ferido lá pelos lados de Lorena, Caçapava. Meu pai conversava bastante comigo, e eu gostava de ouvir suas histórias.
Essa opção de trabalhar no comercio foi tomada ao acaso?
Eu acredito que ele já planejava tomar essa direção, porque quando ele veio do Nordeste já ajudava um padrinho dele, isso em Pedra do Buique, hoje emancipada de Buique, é um município com cerca de 20.000 habitantes, É uma região de grande beleza natural, com afluxo de muitos turistas. Era uma daquelas vendinhas de antigamente, o padrinho concentrava esses esforços nas terras que possuía, a vendinha era um complemento, e meu pai tomava conta para ele.
Ele conheceu Lampião?
Meu contava que Lampião chegou na vendinha onde ele trabalhava, em Pedra do Buique. Meu pai tinha saído para almoçar e quando voltou encontrou a turma de Lampião, um deitado no balcão, outros sentados em rolos de corda, tinham se acomodado onde queriam.
Como o seu pai reagiu quando viu Lampião?
Meu pai na calma dele, não falou nada, apenas escutou. Lampião convidou-o para sair para fora da venda, Daí Lampião perguntou quantos “cabras” (policiais) tinha na cidade. Meu pai respondeu-lhe: “-Tem três.”. Não houve mais grandes conversas e Lampião foi embora.
O pai da senhora chegou a conhecer a Maria Bonita?
Não! Nesse grupo ela não estava. O grupo era de cinco a seis homens.
O pai da senhora tinha boa memória!
O meu pai era muito culto, lia muito. Diariamente lia três jornais. Levava para o trabalho, lia a noite. Isso já em Araçatuba, ele lia: “O Diário de São Paulo”, o “Estadão”, o “Diário Oficial” e o jornal da cidade. Eu já era bem grande, por isso que eu sei. Eu já estava com sete anos de idade. Meu faleceu com 80 anos, sempre leu muito. Ele era uma pessoa que tinha bastante cultura. Em Araçatuba eu terminei o curso primário, só que fiquei como interna, porque o meu pai como comerciante evoluiu, da vendinha ele passou a ser sócio em uma empresa muito grande. Ele foi para uma unidade da empresa em Dourados, Mato Grosso. Na época era sertão, não tinha escola para que eu continuasse os estudos.
A senhora lembra-se do nome da empresa em que o seu pai era um dos sócios?
Era a Irmãos Nocera e Companhia Ltda., que era o meu pai. Eram os irmãos, um cunhado deles e o meu pai. O irmão caçula, Antonio Nocera, ele que era o cabeça da firma, quando expandiu a firma o meu pai foi para Dourados.
O pai da senhora ficou quanto tempo em Dourados?
Eu estava no colégio, interna, comecei a reclamar, a choramingar, saudade de casa que eu tinha. Eu reclamava do colégio, mas não era o colégio! O colégio era um espetáculo! Essa firma tinha em São Paulo um outro segmento de mercado, eles compravam no atacado e distribuíam para outras lojas deles. Transferiram o meu pai para São Paulo, no bairro Barra funda. Mudamos para São Paulo. Minha mãe era paulistana. Com isso fui estudar em São Paulo!
A senhora estudou aonde?
Em São Paulo estudei na Escola Prudente de Moraes. Era na Avenida Angélica. Eu morava em Santana, tomava o bonde em Santana e descia na Avenida Angélica! Em Santana morei na Rua Amaral Gama, travessa da Rua Voluntários da Pátria. Nesse período eu me formei, na época era o Curso Normal, o Magistério. Desde criança minha paixão era dar aulas para as bonecas! Portanto, quando me formei eu quis lecionar, o meu pai ficou muito apavorado. Eu tinha a minha madrinha que era de Araçatuba, ela já tinha falecido, mas tinha o meu padrinho, a filha que foi criada junto comigo, eu disse que iria ficar por lá e arrumar um modo de trabalhar, vou lutar! Na época existia o cargo de substituta efetiva. Só ganhava o dia em que trabalhava. E eu trabalhei antes de me formar, uns dois anos, na Prefeitura de São Paulo. Fui escriturária, auxiliar de escritório.
A Prefeitura na época era em que local?
Essa seção que eu trabalhava começou na Rua Boa Vista, havia várias seções espalhadas em diversos locais de São Paulo, dai fomos concentrados no Ibirapuera!
A senhora inaugurou o prédio da Prefeitura no Parque Ibirapuera!
Sim! Pavilhão das Nações! Foi ali que eu trabalhei!
Na época aquilo era um sonho!
Embaixo era a Secretaria da Educação. Eu trabalhava no piso superior. Era ali que eram distribuídos os funcionários da prefeitura. Foi na época que começou o computador, tinha a sala só das pessoas que trabalhavam com computador.
Quem era o prefeito de São Paulo na época?
Era Ademar de Barros! (Nascido em Piracicaba em uma casa situada na Rua Boa Morte esquina com a Rua Ipiranga, que foi demolida para dar lugar a um terreno que por muitos anos ficou vazio!).
A senhora chegou a conhecer Ademar de Barros?
Eu conheci o Ademar! Conheci como um amigo, o meu pai não era político, mas um tio meu era bem político, ele conhecia o Ademar de Barros do tempo em que eles moravam em São Manoel, quando a minha prima casou-se, o Ademar foi padrinho com sua esposa Dona Leonor Mendes de Barros.
A senhora conheceu Dona Leonor?
Conheci! Um doce de pessoa! Eu conheci de forma mais próxima a Dona Leonor porque a minha prima trabalhava na Liga das Senhoras Católicas. Era normal a Dona Leonor quando fazia aniversário, comemorava com os funcionários em Campos do Jordão. Eles tinham uma mansão lá. Quando a minha prima esteve nessa festa ela me levou, foi ali que conheci Dona Leonor bem de perto, ela fazia um trabalho maravilhoso, vi isso concretamente, nesse dia estávamos chegando em Campos do Jordão e as pessoas vinham voltando, moravam nos arredores, alguns mais longe, trazendo cobertores que ela dava para as pessoas, para as famílias, ela dava na missa do aniversário, as pessoas já sabiam. Ela distribuía os cobertores porque era época de frio. O aniversário de Dona Leonor era junho ou julho. Fomos a essa mansão, onde tudo era tão simples, e a festa era só para os funcionários dela, eu fui porque a minha prima era funcionária. Dona Leonor misturava-se com todo mundo, conversava, ria, era extremamente simpática. É a lembrança que eu tenho dela.
Quanto tempo a senhora morou em São Paulo?
Fiquei bastante tempo lá. Daí fui lecionar, o meu pai estava no Mato Grosso. Ele vinha todo mês nos visitar. Ficamos minha mãe e eu em São Paulo. Tinha a minha avó, os parentes do meu pai. Eu disse ao meu pai que quando vinha nos ver ele passava por Araçatuba, que ficava na metade do caminho, Ele vinha de trem. Fiz a proposta de ir trabalhar em Araçatuba. Apesar de ter algumas ressalvas, achava que eu não iria deslanchar na minha carreira lá, mas ele acabou concordando. Saí da Prefeitura de São Paulo e fui para Araçatuba. Amei! Até hoje tenho saudade! Lá eu era substituta efetiva. Para mim estava pouco, eu queria mais. Fui conhecendo pessoas, uma colega da escola dava aula no sítio, eu disse-lhe: “No dia em que arrumar um lugar lá para mim, você me avisa!”. Não demorou muito ela mandou me avisar. Era até época de carnaval, aquelas festinhas de carnaval. Ela mandou-me um recado: Marly! Segunda feira você precisa estar em Nova Lusitânia que tem um lugar para você”. Fiquei tão feliz que nem liguei mais para carnaval, tinha que levantar muito cedo. Foi ali que comecei a receber dinheiro, com uma classe vaga, parque faltava professor. Fiquei por quatro anos ali. Morava na pensão de Dona Alexandrina! Pessoa maravilhosa! Minha mãe ficou em Araçatuba, o meu pai vinha com mais frequência, porque era mais perto de Dourados.
E a senhora ficou com a Dona Alexandrina?
Dona Alexandrina e colegas maravilhosas, que tenho amizade até hoje! Sou amiga intima da Vilma Barreto, filha da Dona Alexandrina!
Lá a senhora ficou até quando?
Eu já tinha feito concurso para me efetivar no Estado. Esses concursos maravilhosos! Fiquei cinco anos esperando! Foram os cinco anos que fiquei aí nesse lugar! Todo ano tinha um lugar para mim lá! Quando não teve, eu fui mais para frente!
A senhora foi para onde?
Fui para a Fazenda São Francisco do Córrego da Canjarana! Ficava sete quilômetros para frente de Nova Lusitânia! Sobrou aquele lugar porque ninguém quis! O ingresso de novos professores estava atrasado, eu estava esperando para ingressar, só que a turma anterior ainda não tinha ingressado.
Como era a escola da Fazenda São Francisco do Córrego da Canjarana?
Era uma escola rural em uma fazenda que tinha sido dividida, cada filho ficou com um pedaço, tudo gente muito simples, muito pobre.
Como a senhora ficou hospedada ali?
Como vieram outras professoras, elas pegaram perua para viajar, dividíamos as despesas, elas faziam faculdade, com isso fiz parte do grupo. Tinha que entrar as 12:30 na escola, a perua me pegava as 11:00 horas, depois ia pegando todas as outras professoras, eu era a primeira que pegava e a última que descia! Elas tinham que ir para a faculdade, tinham mais pressa do que eu. Eu fiz faculdade, mas depois.
A senhora fez faculdade em que área?
Fiz Pedagogia, em Santos! Finalmente quando saiu o resultado do concurso que eu havia prestado, fui para Mauá, próximo a São Paulo. Deus é tão maravilhoso, que o meu pai já estava aposentado, sem eu saber eles mudaram para Santos! Eu lecionava em Mauá mas morava em Santo André, na época em Mauá não tinha aonde morar. Em Mauá era um lugar bom, a escola era ótima, conheci pessoas maravilhosas. Chegou o dia da remoção, eu escolhi Vicente de Carvalho. Lá tinha bastante vaga, conheci muitas professoras do interior de São Paulo. Escola bem simples, grande. Fiquei lá até na época em que apareceu uma oportunidade e me removi para a Base Aérea de Santos. Era escola da Base Aérea, o nome era ALA 435, mas gerenciada pelo Estado. O diretor era militar. Ele que comandava a escola, era linha dura! Quando chegamos lá, eu e mais cinco, todas removidas, tinha lugar para todas. Assim que chegamos ele já deu uma preleção, já chamou o social, no Estado era completamente diferente. Ele nos deu a linha de trabalho, uma de nós, talvez eu, disse-lhe: “-Não se preocupe! Nós somos de trabalho! Eu conhecia as meninas, nós trabalhamos juntas nessa escola de Vicente de Carvalho. E ele só ficou feliz com a gente, com o tempo ele foi vendo que nós fomos para lá para trabalhar mesmo!
A senhora permaneceu até quando na escola da Base Aérea?
O meu pai, que lia diariamente três jornais, leu no Diário Oficial que tinha um concurso para Coordenadora Pedagógica. Nesse período eu fiz o curso de Coordenação Pedagógica, Orientação Educacional, fiz diversos cursos. Era o primeiro grupo de Coordenador Pedagógico, hoje já não é mais assim. Eu não queria, estava tão bem lá! Trabalhava quatro horas, a noite ia para a faculdade, meu pai insistiu muito, até que falou: “-Você quer ser soldado a vida inteira!”. Eu argumentei que tinha que procurar um diretor, nem sei qual diretor vai querer , seria só para as escolas carentes. Eu tomava a barca para ir até a Base Aérea. Encontrei com um colega de faculdade, o Edmur, que disse-me: “ Você não quer se inscrever para Coordenadora Pedagógica? O diretor de tal escola está precisando!”. No outro dia fui lá, Isso tudo para prestar o concurso e precisava ter essa apresentação de um diretor de uma escola carente! Fui, prestei o concurso, logo saiu o resultado. Daí fui mais para frente: Jardim Praiano! Fica na altura da Praia da Enseada, no Morro da Vila Baiana. Não gostei muito do ambiente, e eu só poderia sair de lá quando tivesse concurso, tive que permanecer por dois anos, os professores eram mais difíceis de lidar, o diretor era muito sem vontade de trabalhar, era outro esquema! Aconteceu que teve uma época de remoção, achei uma vaga no Morro do Saboó m Santos. O diretor estava precisando, a que estava lá tinha trocado. Eu fiquei no lugar dela, até me aposentar.
Não era complicado a senhora ir até o Morro do Saboó?
Eu não precisava ir até lá, era no sopé! Eu pegava um ônibus só para ir até a escola!
A senhora morava em que bairro?
Lá em Santos eu morei no Boqueirão, ali no canal 3, Rua Alexandre Herculano com a Avenida Washington Luís, ali próximo da Basílica Santo Antonio do Embaré, que é lindíssima! Depois de tudo isso meus pais faleceram ali, meu pai faleceu com 84 anos e a minha mãe com 88 anos. Fiquei um tempo lá só, como eu queria ficar beirando a praia, vendi o apartamento lá e comprei outro perto da Igreja do Embaré.
A senhora mudou se para Piracicaba há quantos anos?
Eu vim para cá em 2000, conheci o Gilberto em 2013, nos conhecemos por acaso e esse por acaso foi rápido, daí ele fraturou a perna, eu afirmo que nós fomos casados no Hospital dos Plantadores de Cana, nós éramos vizinhos de parede em um condomínio fechado, era um sábado ou um feriado, eu escutei o meu nome, aproximei-me, abri a porta, era ele que estava com a perna quebrada. Entrei, vi aquela situação, chamei a ambulância, fui com ele dentro da ambulância, fiquei lá, foram feitos os procedimentos médicos, permanecia no hospital, ele operou a perna, após uma semana quando ele saiu, quem nos conhecia sabia que estávamos iniciando um namoro, só que ele teve voltar ao hospital em decorrência de uma infecção, depois de um período em que foi tratado ele ficou bem. Hoje já temos cerca de 15 anos de vida em comum, amigos em comum, temos que procurarmos ser felizes e fazer os outros felizes também.
Vocês formam um casal com uma vitalidade e bom humor contagiante, uma característica da senhora que fica evidente é o seu amor e cuidado com suas lindas plantas!
Desde o tempo em que morava em Araçatuba, sempre tive minhas plantas, mesmo morando em apartamento, pelo menos um vasinho eu sempre tive!
Quando a senhora morava em São Paulo, no bairro Santana, a senhora chegou a usar o trem da Cantareira?
Era o trenzinho da Cantareira! Andei nesse trenzinho para ir passear na Cantareira que era um lugar muito gostoso. Eu tinha as minhas amigas, nós íamos, fazíamos piquenique, esse trem ficou imortalizado pela música de Adoniran Barbosa em “Trem Das Onze”. Eu me lembro desse trenzinho, as minhas tias trabalhavam nas Indústrias Matarazzo no bairro Água Branca, elas tomavam esse trenzinho de madrugada! Era uma vida sacrificada, mas eu não via ninguém triste. Minhas tias saiam para trabalhar ainda estava escuro, quando voltavam já era noite. Sempre alegres, contentes. Na época eu tinha uns seis anos, vinha nas férias.
A implantação do metrô em Santana a senhora chegou a ver?
Sim, cheguei a ver a implantação da primeira linha do Metrô de São Paulo, a Linha Azul! Nessa época eu já morava em Santos, mas eu vinha visitar nossos parentes em Jaçanã, eu vinha com a minha mãe, tomava o metrô até Santana, lá tomava o ônibus até Jaçanã.
De Santos a senhora lembra-se do Mercado de Pescados?
Agora está maravilhoso! Mas teve um período que não era tão organizado.
A senhora é do tempo que tinha conchinhas na praia?
Cheguei a pegar conchinhas! Isso quando eu tinha uns sete anos e vinha na casa das minhas tias. Nessa época eu morava em Araçatuba!
Uma característica que era muito marcante era o habito de cantar o Hino Nacional nas escolas?
Desde a escola rural de São Francisco do Córrego da Canjarana até a escola da Base da Aeronáutica ALA 435 os alunos cantavam diariamente o Hino Nacional!
Hoje esse espírito cívico faz falta?
Completamente! Já faz tempo que falta o espírito e a consciência de amor à Pátria. Quem tem uma sementinha nunca esquece. O meu pai era muito patriota. Meu pai era autodidata, tudo que você conversava com ele era interessante, ele lia, conhecia, orientava, concordava ou não, mas não discutia, cada um com a sua opinião.
Como a senhora vê a juventude atual?
Tem um lado da juventude que eu acho muito lindo! Apesar de eles verem tanta coisa errada, eles venceram essa parte, estão cuidando da vida, trabalhando e seguindo em frente. É a parte que eu realço! Aquela outra parte, um dia irão sentir a diferença! Já deu para eles perceberem! Agora se eles quiserem tem tempo, mas vai ser mais difícil!
A senhora vivenciou uma época em que surgiram movimentos jovens como os beatniks, hippies e outras manifestações de contracultura nas décadas de 69, 70. O que a seu ver isso influenciou na nossa juventude?
Eu nem posso falar nada, trabalhava tanto que não tinha contato com essas pessoas, nem mesmo meus alunos não imaginavam que isso existisse. Onde eu trabalhava nem energia elétrica existia, era luz de lamparina! Mesmo porque eram crianças, não tinham interesse, os que podiam já iam com os pais trabalhar na roça! Já sabiam o que era o trabalho, não tinham tempo para essas coisas. Brincavam na rua com o que dispunham, criavam brincadeiras com o que tinham. A vida deles era maravilhosa! Depois surgiu o rádio de pilha, a televisão. Mas até então isso não fez falta, pelo menos nessa época, eu saí de lá em 1970.
A senhora gosta de viajar?
Gostamos sim! Dentro do nosso limite! Eu já estou com 88 anos!
A sua disposição física, agilidade física e mental, sua memória fantástica, todos esses fatores conjugados, são dignos de estudos científicos! Sua voz firme, clara, para quem não sabe estimarão sua idade bem menor.
Eu acho que é tudo a forma como fui criada! Meus pais me criaram muito bem, sempre me deram uma boa alimentação, cheguei a tomar leite de cabra, hoje usam leite em pó! Isso é apenas um exemplo de como o fator alimentação mudou muito!

